Wednesday, November 22, 2006

Pacto

Mônica se apronta na casa de Edu para ir à festa. Toma um banho demorado, lava seus cabelos, hidrata seu corpo, com o pensamento longe. Estava alegre, como se tivesse acabado de acordar para o mundo. Estava leve. Se permitiu até mesmo cantarolar, enquanto ele esperava pacientemente no puf da sala, já pronto. Cinco minutos eram suficientes para ele se aprontar, parecia contente, colocou uma música animada e alta enquanto aguardava. Saíram juntos, como de costume, só que o destino final seria cada um para um lado, interesses diferentes, pessoas diferentes, lugares diferentes. Um telefonema faz mudar um pouco os planos, pelo menos para a primeira parte da noite. Eles resolvem encontrar seus amigos em comum. Por ela ficaria ali por horas, mas não fazia mais muito sentido. Deu um beijo no rosto de Edu e se foi. Ainda tinha um compromisso que não podia se atrasar.
Ouvia distraidamente o que dizia o palestrante, imaginando o que Edu poderia aprontar, mas lembra-se que, agora, ela poderia fazer o que quisesse também e se acalma. Mas seus dedos não obedeceram sua consciência e a mensagem foi mais rápida, pedindo ao menos um pouquinho de juízo para seu amigo. Não adiantava se arrepender, foi. Volta sua atenção onde deveria estar e não demorou para ter a resposta. Ficou tensa. Não esperava que ele pedisse para ir com ela. Não essa noite. Já estava preparada para se virar sozinha.
Demorou, mas resolveu não ceder. Mandou um beijo e disse que aproveitasse. Foi.
- Muito bem, Dona Mônica. Conseguiu tomar a decisão certa - disse aquela vozinha interior.
Encontrou seus amigos, matou saudades, dançou, se divertiu, não viu a hora passar.
O lugar era legal, tudo perfeito. Riu muito das cantadas comuns e curtiu as originais, mas ninguém a afetou. Conheceu gente nova, gente interessante. Mas percebeu que continua muito exigente.

Edu se empanturrou de massa, despediu de seus amigos e foi desbravar a noite em sua nova cidade, que já não era tão nova assim, mas que já amava. Estava exatamente onde gostaria e foi fácil sair a procura de algo. Passou por alguns bares, bebendo, observava as pessoas e mantinha o ar blasé. Queria algo mais animado. Encontrou uma dessas boates não muito bem frequentadas, isso não tinha a mínima importância. E a essa altura, já embriagado, as pessoas já se tornaram bem mais interessantes. Se sentiu bem, seduziu, ganhou, bebeu, se divertiu. Chegou em casa acompanhado, acordou sozinho. Não conseguia se lembrar direito como foi a tão esperada noite, nem sequer do nome da moça. A cabeça explodia, o lençol fedia. Levantou em busca urgente de um cigarro e uma ducha. Achou num guardanapo de papel em cima da TV um número de telefone. Descobriu o nome da moça. Guardou na gaveta da cômoda. Poderia ser útil para o futuro. Sentou-se e pegou seu livro.

Tornou a levantar, foi até a gaveta da cômoda e jogou o guardanapo fora. Não fazia sentido. À noite comeria ao lado de sua companhia favorita.

Mônica acordou tarde, se arrumou e saiu para um churrasco. Caiu a noite, se lembrou que essa hora deveria estar no seu esconderijo preferido. Mas como os passos de seu amigo eram tão previsíveis, pegou o carro e foi pra casa.

Ele come sozinho, arrepende-se de ter jogado o guardanapo fora e de outras coisas. E repara: a escova de dentes não está mais ali.

Resolve levá-lo,
encontrou seus amigos, matou saudades, dançou, se divertiu, não viu a hora passar. O lugar era legal, tudo perfeito. Conheceu gente nova, gente interessante, quando dava, pois estava com um belíssimo guarda-costas do lado, que ora vinha a calhar e ora atrapalhava. Edu se adapta bem, canta, dança, joga charme e permanece intocável. Vão embora juntos. Ela coloca sua escova no lugar.

Tuesday, November 21, 2006

Entorpecida


13/11/2006
Querendo fugir do seu mundo que desabava, entrou num mundo que não era o seu. Foi praticamente jogada lá dentro, com histórias de amores e dores, onde teria enfim uma função para esquecer suas dores dilacerantes que não tinham remédio e ajudaria a curar a de outro.
Parecia uma droga, que a princípio deu coragem, anestesiou, aliviou, trouxe euforia e viciou. Aí já era tarde demais. Mas o contato com a droga era maior que qualquer coisa, 24 horas por dia, todos os dias. O problema era que Maria era otimista demais e acreditava que sempre seria melhor, não acreditando no contrário. Tudo é muito lindo no mundo de Maria. E quanto mais se tem, mais se dá, mais se quer. Falo de afeto. Nunca foi acostumada a ficar sem afeto, carinho.
Sabendo bem no fundo que isso era realmente uma droga e que um dia não teria mais como se sustentar nela, tomou a decisão de não mais querer, sendo ajudada pela distância. Durou pouco, o entorpecente chega novamente de mansinho e toma posse do entorpecido. Como fugir? Como resistir?
Aí começou a pior fase. A fase onde cada picada trazia euforia cada vez mais momentânea. Mas para Maria, tudo tinha que ser perfeito. Então, espetava-se novamente, na esperança que dessa vez fosse mais gostoso, mas não era. Tentava de novo, para experimentar novamente a euforia do começo, mas em vão. Esse foi seu erro. Deveria ter parado quando ainda tinha o controle da situação. Mas acho que toda droga leva a esse ponto, até o fundo do poço.
Até que Maria acordou. Ela tinha que voltar para o mundo real, nem o seu antigo mundinho perfeito, nem o mundo que não era seu. E como se trata de Maria, com mais cicatrizes dolorosas. Talvez por causa do orgulho, que não conseguiu encontrá-lo onde deveria, estava no fundo da mala encostada do quarto de despejo, junto com o amor próprio. Agora, livre da substância que a deixava entorpecida, tira o pó, abre a mala e resgata sua bagagem.
Chorou muito hoje, não seria novidade. Mas resolveu matar tudo que a faz chorar e não deixará cair mais nenhuma lágrima, ou pelo menos vai escondê-las com seu novo óculos escuros que está providenciando para amanhã.
Se não conseguir... A propósito, Maria tem uma faca.

Thursday, November 16, 2006

Transplantado coração

A água do mar batia no meu corpo, indo e vindo deliciosamente. Mania minha ficar deitada bem na beiradinha, esperando pacientemente cada onda chegar, tentando agarrá-la até deixar a marca dos meus dedos na areia, em vão. Meus olhos sempre em direção ao horizonte, adorava aquela hora do dia em que eu podia olhar para o sol e admirá-lo. Por um instante senti uma coisa estranha, um aperto e uma dor, uma angústia e chorei. Chorei sem saber o porquê. Levantei num impulso e corri pra te ver. Corri até perder o fôlego e ao chegar na porta da sua casa parei. Tive medo do que poderia ver. Ou não ver.

Com o corpo todo molhado e cheio de areia virei lentamente a maçaneta. Não bati. Sabia que a porta estaria aberta como sempre. Na ponta dos pés fui em direção ao atelier, de onde vinha uma luz pálida e um perfume de incenso que me fez lembrar da última vez que estive ali:

...Apareceu sorrindo, com a garrafa de chat noir e duas taças lindas. Eu esperava na sala, aconchegada no puf, já descalça, ansiosa pelo beijo que chegou rapidamente, me repondo a energia e ao mesmo tempo a sugando, numa troca vital para nossos corpos como de costume. Deixou o vinho de lado e por algum tempo nos esquecemos dele. Esquecemos também do jantar que já estava preparado, me aguardando e nos aguardando. Como poderia esquecer aquele tempero, aquele cheiro. E a cada movimento uma foto, para registrar tudo. A última foto fui eu que tirei sem que você visse, enquanto acendia o incenso...

Empurrei a porta entreaberta, olhei as fotografias penduradas no varal, o frio na espinha que sentia foi se tornando quase insuportável, aterrorizante. Não vi você ali. Mais lentamente ainda fui até a cozinha, na esperança de ver você preparando algo, pois sabia que eu poderia aparecer a qualquer momento. Senti medo mais uma vez e corri para o quintal. Você estava alí com o gato, o seu preferido, caído de qualquer maneira sobre a folhagem e balbuciou:

- Quiseram me levar, abriram meu peito e arrancaram meu coração. Colocaram alguma coisa oca no lugar e costuraram de novo para que eu vivesse. Mas lembro bem das palavras ditas: “Vais sobreviver porque sem coração não se pode chamar de vida. Vais continuar vivo porque seria um pecado privar o mundo de tua beleza. Mas será uma sobrevida subterrânea. Ninguém te achará, tu não encontrarás ninguém. Podes esquecer. Pedirás pra morrer quando isso que tens não te satisfizer mais”.

Corri em sua direção e abracei forte a sua ferida, querendo que ela passasse pra mim. Deve ter doído. Doía em mim. E você continuou:

- Mas “isso” estava enganado. Acabei de descobrir quando me abraçou. “Isso” me fez foi um favor. Tudo o que “isso” disse já acontecia. Vai se surpreender quando souber que não funcionou. Sinto agora bater mais forte um verdadeiro coração. Tirando essa cicatriz que estará aqui pra sempre, tenho vontade de amar, de te amar, e amar o mundo. “Isso” deve ter levado o que já estava estragado, mas não entendo, só comecei a sentir agora quando você chegou. E tenho certeza que não foi esse o objetivo “disso”.

Me abraçou forte, como eu fiz quanto te encontrei. Não entendi, pois você já estava curado e bem, mas o sangue de nosso abraço não parava de escorrer. Não entendi por que não sentia mais o frio na espinha, o medo, a dor, o amor. Não sentia mais nada. Te tranferi tudo o que eu tinha, não podia mais sentir. O sangue era meu.
Você chorou por mim e eu não me afetei. Então chorou por nós e eu me fui.
Eu não tinha como sobreviver sem coração.

Friday, November 10, 2006

Amigos para sempre

Estava sol, fazia muito calor, Mariana finalmente chegara, com seu vestido florido. Adorava colocá-lo. Tinha loucura com vestidos. Seu melhor amigo, Tribal, a esperava ansiosamente em sua casa. Tinha esse apelido pela tatuagem tribal que sempre falava em colocar em seu braço, mas que nunca fizera, "ainda", como ele dizia. Ele também adorava aquele vestido, era o que ela usava quando brincaram pela primeira vez. Abraçaram-se bem forte como sempre faziam.
- Que perfume é esse, Mari?
- Shiiii. Fala baixo, peguei escondido da mamãe. Esse aqui ela guarda bem escondidinho e eu não posso usar.
- Ra ra rá, Mari, sua doida, e você acha que ela não sentiu enquanto vinham pra cá? Ela que não quis achar ruim com você.
Mariana corou e fez o biquinho de costume.
- Pára de rir de mim, Tri. Você não. E venha ver a figurinha que eu trouxe - abriu a mochila cor de rosa e tirou um bolo de figurinhas do álbum da moda.
- Essa eu já tenho - disse Tribal - mas eu tenho uma coisa aqui que eu sei que você não tem. - Vasculha uma caixa repleta de figurinhas, revistas e livros.
Seu gosto pelos livros começou cedo. Já perdera a conta de quantos livros tinha lido.
Mas a maioria deles não se encontrava mais ali. Tinha o hábito de dar os livros, assim que os lia, para quem achasse que ia gostar.
- Cada livro tem a cara de uma pessoa. Esse aqui, por exemplo, é a sua cara, Mari. Você vai adorar. Mas só vou te dar se me der o beijo que te peço a tantos dias.
- Ai, que história é essa de beijo? Você tá com isso agora. Acha que eu vou encostar aí na sua boca pra você babar em mim como fez com a Pri, com a Lu e com a Rosa? Acha que eu não sei disso tribal?
- E o que é que tem, Mari? É muito bom.
- O que é que tem é que... Deixa pra lá. Não vai me dar meu livro?
- Toma.
Mariana dá um beijinho na bochecha de Tribal que abre um sorriso travesso. Ele costuma ter esse sorriso sem motivo aparente, como se estivesse matutando alguma travessura.

Tia Júlia aparece com uma limonada deliciosamente gelada e um sanduíche de peito de peru. Mariana olha deslumbrada a figura da mãe de seu amigo se aproximando com aquele olhar terno e aquela voz doce que tanto lhe fazia bem.
- Nossa, isso é um sonho. Tudo que eu queria era esse suco. Que calor!
- Deixa aí mãe.
Tia Júlia deixa o lanche e os deixa a sós.
- Mas esse livro aqui fala sobre o que, Tri? Por que acha que vou gostar?
- Não vou contar agora, depois que ler me fa... Ei, onde vai? De novo?
Mari dá uma sumida de uns minutinhos.
- O que você tava falando mesmo?
- Não interessa mais. Não tínhamos combinado de parar com essa história? Eu não faço mais isso, Mari.
- Você não, mas eu sim. Prefiro assim, olha como estou linda! Você não faz mais isso, mas acha que não te vejo fumando escondido? Não foi por isso que teu tio morreu? Me preocupo com você.
- Você não precisa disso pra ficar linda. Se acha gorda? Você é maluca. Onde vai chegar assim?
- Bom, se contar pra alguém eu conto de você. Sabe guardar segredo? Você precisa guardar.
- Sabe que detesto segredos. Isso não devia existir. Pode falar pra quem quiser sobre mim.
Acho que ia ser tudo mais legal se as pessoas se assumissem do jeito que são.
- Conta e não me verá mais, garotinho.
- Podemos fazer um pacto, Mari. Topas?
- Depende.
- Eu paro e você pára com essa nojeira doida.
- Não sei se consigo, Tri. Você consegue? Se conseguir, eu prometo que vou tentar.

Antes de dormir Mariana abre seu livro novo, cheia de curiosidade. O livro conta a história de um anjo da guarda, que cuida de um menino travesso e o tira de suas trapalhadas. Um anjo frágil na estrutura, mas que se virava em força quando se tratava de cuidar de seus protegidos.
Pega o telefone e fala baixinho com medo de alguém ouvir. Já era tarde. Dá dois toquinhos como de costume.

- Alô, Tri? Me promete uma coisa? Promete que vamos ser amigos para sempre?

Wednesday, November 08, 2006

Hoje, mais do que nunca, dona do meu próprio nariz.
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