Toc toc toc
a porta se abre fazendo um ruído como se a muito tempo não tivesse sido aberta. Um cheiro de mofo, de ferrugem, de coisa velha. Ao primeiro sinal de intruso a poeira se levantou, nublando tudo, as teias de aranha começaram a perder seu fabuloso desenho. Os passos atravessaram o hall de entrada, abre-se uma cortina que escondia uma janela enorme e de uma vez, um raio de sol maravilhoso penetra aquele ambiente, dispersando araínhas, ratos, diversos tipos de insetos, que trataram de encontrar uma brecha para abandonar aquele ambiente, que estava começando a se transformar. Que lugar era esse que a atraía tanto, sendo tão diferente de seu habitat natural? Mas foi para onde o labirinto a guiou, onde as vozes e os sonhos a levaram tão irresistivelmente. Seu corpo pareceu a princípio não suportar, cobriu a respiração e foi pé ante pé aprofundando naquele lugar. Estranho, mas tudo alí a atiçava a querer desbravar mais aquele lugar. Iluminado o hall, limpou, arejou, e se deliciou com o prazer que sentia. O lugar e ela estavam em sintonia.
Partiu para o próximo cômodo. Raro era quem tinha a permissão de permanecer ali, e mais raro quem podia fazer uma limpeza por alí - talvez isso nunca tivesse sido permitido a ninguém. Haviam alguns indícios de que alguém já havia penetrado aquele hall. Algumas poucas marcas quase apagadas na poeira grossa. Agora a etapa seguinte começou a receber um pouquinho de luz que vazava do hall e ela pode ver naquela escuridão. Era uma grande sala. Encontrou uma rachadura, que já estava quase separando essa sala em duas, e aí não se poderia seguir adiante. Sentou alí, esperou, gostava dalí. Estava recuperando o que podia por alí e percebeu que conforme o tempo passava essa rachadura diminuía. Contribuía para isso também, restaurando tudo a sua volta e tentando fechá-la. Quando só restava o risco no chão - esse não teve jeito ainda de tirar - ela continuou a travessia e começou a perceber que já não havia mais pegadas de visitantes.
O próximo cômodo estava muito, muito escuro. Não havia janela, nem vela. Mas ela não queria mais sair dalí. Sentia que iria encontrar algo que compensaria qualquer sacrifício um dia feito. Um tesouro? Não saberia o que era. Não poderia ter noção do que encontraria, mas sentia seu cheiro, seu calor o prazer de estar alí. Difícil, mas paciência foi uma qualidade desenvolvida nesse tempo de reclusão. Ah, teve perseverança também. Apareceram alí ainda alguns ratos, que a atacaram, a fizeram chorar, mas se foram. Uma serpente a pegou desprevenida. Adoeceu, quase não resistiu, mas sobreviveu. E levantou mais forte, mais ágil, mais esperta. Foi pacientemente tateando a parede e encontrou uma falha, que era feita de um material mais mole. Abriu uma janela alí, iluminou. Agora se podia ver o sol e a lua daquele lugar. Colocou todas as ameaças para fora, não tinha mais lugar para o lixo alí. Agora via claro, só havia as pegadas do dono alí, inconfundíveis, e o cheiro cada vez mais forte. Mais uma vez limpou tudo, e pôde admirar a beleza do lugar. Passeava agora por todos os ambientes, dançava, cantava, pensava, dormia, e era nutrida pelo próprio ar e pela própria luz que estavam alí. Perdeu o medo, e continuou paciente.
Voltou para a parte mais funda e ficou alí. Arrumou um cantinho para ela, bem aconchegante e adormeceu. Um tempo depois alguém a cutucou, pegou-a pela mão e mostrou uma passagem que até então não tinha visto. Era uma porta invertida, sem maçaneta mas que agora estava aberta. Atravessaram a porta, tropeçou, mas ele não a deixou cair. Entraram e a porta se fechou. Por um momento ficou aflita, sem saber como retornaria. Mas logo viu que não iria mais precisar sair. Alí dentro era imenso, lindo, tinha um perfume muito bom, era prazeroso ficar alí. Tinha uma iluminação especial, muito diferente do que conhecia. Para todo lado que olhava só via coisa boa, um sentimento muito gostoso. Olhou seu anjo, aquele que a tinha levado alí, era lindo. Um rosto conhecido, um cheiro conhecido, um gosto conhecido. Sorriu.
- Mostre-me tudo, cada pedacinho daqui. Como abriu aquela porta? Por que abriu pra mim?
- É a primeira vez que entro aqui. Primeira vez que vejo isso tudo. Então não posso te mostrar. Não descobri sozinho, vc me mostrou que era possível isso existir. Procurei junto, mesmo estando a muito tempo nas partes escuras sem encontrar essa porta. Não abri, ela se abriu quando desejei muito. Não queria entrar só. Vamos explorar isso tudo juntos, não há nada mais justo.