
Gil acaba de chegar do ginásio, mais uma etapa do campeonato que tá animando toda a faculdade. Não conseguiu ficar até o final. Infelizmente, pois o último jogo seria o mais divertido. Não consegue mais se divertir com essas coisas tão superficiais. Acaba de chegar, mas não em sua casa, onde a estão esperando como sempre. Foi para um abrigo, um esconderijo, que nos últimos tempos tem sido muito mais interessante que outro lugar qualquer. Engraçado isso, principalmente porque foi pra lá para ficar sozinha, tranqüila, coisa que não era de seu feitio.
Há alguns dias atrás, Gil conversava com seus amigos a respeito do que levaria uma pessoa a ser um eremita. Não concordava com essa atitude, achava egoísmo demais uma pessoa se isolar da sociedade, privando a si mesma e aos outros das trocas de experiências, da convivência e de contribuir de alguma forma. Mas logo começou a pensar diferente.
- Que sentimento insuportável! Por que as pessoas têm que se intrometer tanto na vida das outras? Cada um sabe de si, mas não, nunca é assim. Preocupação com números, cifras, de quem é ou deixou de ser a culpa, por que sim, por que não, quando foi, se foi, coitadinho, que canalha, julgamentos estranhos de quem não tem nada com isso e não tem esse poder de julgar. Aliás, ninguém tem o direito de julgar ninguém, não deveria ser assim. E ninguém, a não ser eu sabe de mim, sabe o que se passa aqui dentro, conhece o movimento interno que motiva minhas ações. E ninguém tem que saber a não ser que eu queira.
Não, não é hipocrisia, Gil sempre conviveu com isso levando numa boa, achando normal, pois o ambiente de pessoas que se dizem normais é assim. Preocupações tolas. Mas de um tempo pra cá vem aprendendo a odiar isso. Pra todo lugar que olha percebe isso nas pessoas. E olha pra elas não com raiva, pois sabe que elas não compreendem o que compreende. Elas não fazem questão de se libertarem desse tipo de comportamento, ou simplesmente não conseguem, de tão enraizado está. Olha para as pessoas com vontade de sumir, pois está rodeada de tudo que causa esse grande incomodo interno. Gigante, enorme, insustentável, indefinível.
Pega suas coisas, que de tantas eram, conseguiu resumir em uma mochila, escolhe um livro para acompanhá-la, o livro mais universal de todos, que não vai deixar de ser atual e interessante nunca. Deixa seu abrigo, pois sabe que não é seu.
Ninguém mais teve notícias de Gil. Não sei se enfiou num desses lugares lindos que só ela conhece e não se tem contato com ninguém. Provavelmente sim, contradizendo a opinião que sempre teve sobre isso. Ainda bem que as pessoas mudam de opinião. Que mundo sem graça seria esse se não se pudesse mudar!
Mas me disseram que a viram caminhando num lugar bem longe, onde ela sempre disse que iria um dia, mochila nas costas, cajado na mão e um sorriso enorme nos lábios.