Ouço Vozes
Sinto um cheiro bom, diferente daquele que me acompanhou nas últimas horas. Talvez rosas, não, é ainda mais gostoso e mais forte. Me lembra o cheiro das flores que exalam seu perfume à luz da lua. Me fez esquecer por um instante o odor desagradável do rio vermelho onde eu acordei, sem entender o que fazia ali. Mas a sensação é de que ainda não acordei.
Percebo uma voz familiar, que há muito tempo não ouvia. Me fez bem. Essa voz me acompanhou desde que deixei de ser menina, meu porto seguro da vida toda. Ela vinha doce, triste e estava ali, tentando resgatar algo que se perdeu. Lembrei de momentos maravilhosos, de sensações muito gostosas, de lugares lindos, sempre acompanhados dessa voz. Estranho, meu consciente sabe que junto com tudo isso também teve muita dor, mas não consigo lembrar dessa parte ruim. Parece que estou com uma venda nos olhos e só vejo o que me faz bem. Não dói mais. Estranho imaginar que essa voz não faz mais parte do meu presente.
Uma voz diferente invade o ambiente e, dessa vez, eram realmente rosas, de um vermelho tão vivo que por uns instantes me embriagou, mas logo voltei, e ouvi o silêncio que se formou entre essas duas pessoas desconhecidas, surpresas, tristes.
Uma voz diferente invade o ambiente e, dessa vez, eram realmente rosas, de um vermelho tão vivo que por uns instantes me embriagou, mas logo voltei, e ouvi o silêncio que se formou entre essas duas pessoas desconhecidas, surpresas, tristes.
O pensamento de um e de outro gritava nos meus ouvidos:
“O que esse escroto faz aqui? Não tem mais o direito de estar aqui. Depois de tudo que a fez chorar nessa vida?”
“Quem é esse sujeito que nunca vi? Será que ela já conseguiu me substituir? Eu mato os dois.”
E o silêncio logo se quebrou:
- Eu sou ...- disse delicadamente a voz que não me acompanha mais, estendendo as mãos.
- Eu sei quem você é.
- Então quem é você?
- Sou só um amigo. Um amigo.
- Claro. Um amigo que traz rosas vermelhas e não pára de chorar?
- Sim. Não vejo porque não poderia. Afinal, você melhor que ninguém deveria conhecer a capacidade que ela tem de cativar as pessoas sem fazer muita força. Tenho certeza que muitos queriam vir aqui mas não tiveram coragem. Têm medo de serem mortos. Mortos de uma forma diferente da qual você a vinha matando. Você que não deveria estar aqui, ainda mais tentando fazê-la acreditar que a assassina foi ela. Isso não é justo.
- Quem é você para falar de justiça? Nunca fez ninguém sofrer?
- Sempre fui honesto, mas você tem razão, isso não me isenta de magoar as pessoas. Por isso estou chorando, porque receio não ter mais a oportunidade de dar tudo o que puder para vê-la sorrindo despreocupada, apertada contra meu peito. Não digo que fui burro, simplesmente não sabia, não acreditava e não queria sentir nunca mais essa coisa idiota que só os tolos sentem. Mas ela nunca foi tola, sempre soube que aconteceria de novo.
- E você a deixou ir embora sem dar o que ela precisava. Sorte minha não a conquistou.
- Sorte tua? Quem disse que não a conquistei? Sedução, meu amigo, é minha arma mais poderosa.
- Mas sedução sozinha não sustenta nada. E ela precisa de muito, muito mais...
Fechei meus sentidos para não perceber mais essa conversa. Não chegaria a lugar nenhum. Talvez se as duas vozes se fundissem em uma, seria possível uma completar a outra nas qualidades e jogar fora os defeitos? Não todos, pois seria muito chato, mas pelo menos aqueles que cortam e ferem.
Ah se fosse possível. Mas aí iriam querer me fundir com mais alguém e jogar fora uma parte de mim. Não. Definitivamente é melhor deixar pra lá, pois a única certeza que tenho é que eu sou a única pessoa com quem posso contar. Tenho que estar inteira à minha disposição.
“O que esse escroto faz aqui? Não tem mais o direito de estar aqui. Depois de tudo que a fez chorar nessa vida?”
“Quem é esse sujeito que nunca vi? Será que ela já conseguiu me substituir? Eu mato os dois.”
E o silêncio logo se quebrou:
- Eu sou ...- disse delicadamente a voz que não me acompanha mais, estendendo as mãos.
- Eu sei quem você é.
- Então quem é você?
- Sou só um amigo. Um amigo.
- Claro. Um amigo que traz rosas vermelhas e não pára de chorar?
- Sim. Não vejo porque não poderia. Afinal, você melhor que ninguém deveria conhecer a capacidade que ela tem de cativar as pessoas sem fazer muita força. Tenho certeza que muitos queriam vir aqui mas não tiveram coragem. Têm medo de serem mortos. Mortos de uma forma diferente da qual você a vinha matando. Você que não deveria estar aqui, ainda mais tentando fazê-la acreditar que a assassina foi ela. Isso não é justo.
- Quem é você para falar de justiça? Nunca fez ninguém sofrer?
- Sempre fui honesto, mas você tem razão, isso não me isenta de magoar as pessoas. Por isso estou chorando, porque receio não ter mais a oportunidade de dar tudo o que puder para vê-la sorrindo despreocupada, apertada contra meu peito. Não digo que fui burro, simplesmente não sabia, não acreditava e não queria sentir nunca mais essa coisa idiota que só os tolos sentem. Mas ela nunca foi tola, sempre soube que aconteceria de novo.
- E você a deixou ir embora sem dar o que ela precisava. Sorte minha não a conquistou.
- Sorte tua? Quem disse que não a conquistei? Sedução, meu amigo, é minha arma mais poderosa.
- Mas sedução sozinha não sustenta nada. E ela precisa de muito, muito mais...
Fechei meus sentidos para não perceber mais essa conversa. Não chegaria a lugar nenhum. Talvez se as duas vozes se fundissem em uma, seria possível uma completar a outra nas qualidades e jogar fora os defeitos? Não todos, pois seria muito chato, mas pelo menos aqueles que cortam e ferem.
Ah se fosse possível. Mas aí iriam querer me fundir com mais alguém e jogar fora uma parte de mim. Não. Definitivamente é melhor deixar pra lá, pois a única certeza que tenho é que eu sou a única pessoa com quem posso contar. Tenho que estar inteira à minha disposição.
Então, acorde Maria, pois ainda há muita coisa a ser vivida.


1 Comments:
É isso ai maria. Independencia. Gostei do texto.
;)
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