Thursday, April 26, 2007

Três Marias

Maria Alice

Cai a noite, o orvalho cobre toda a folhagem e se mistura com a vida noturna do campo. Maria Alice chega correndo em direção à varanda, onde ele está descansando na rede, pitando seu cigarro de palha e tomando uma cerveja gelada.

- Quer aprender a caçar aranhas?

- Quero, Maria.
- Pega a lanterna e venha cá fora.

(...)


- Coloca a lanterna na testa. Tem que ser perto dos olhos. Ilumina a grama, quando avistar um brilho verde, aproxime a luz sem desviar. Cuidado pra não confundir com gotas de orvalho.


Ele faz direitinho.


- Achei, olha aqui. Esse negócio funciona! Não acredito que sei caçar aranhinhas na escuridão! E muito menos que essa grama está cheia delas. Mas larga mão desses bichos aí e busca uma cerva pra gente, Maria.

Ela traz algumas cervejas, sentam ali com as aranhas, bebem e riem até tarde.

(...)

Ela acorda cedo, prepara o café. Quando tudo está pronto vai até o quarto dele para acordá-lo. Ele já acordou, está tudo arrumado, nem sinal de suas coisas.



Maria Anna


- Bonjour!
- Bom dia, Maria. Chegou cedo. É tão bonito quando vc chega e dá esse bom dia feliz!
- Estou feliz. Olha que dia lindo! As coisas estão entrando nos eixos né.


Maria Anna se preparava para a viagem dos seus sonhos.


- Hoje dá pra pegar umas trilhas legais. Tá tudo pronto. Bora?

- Bora. Vamos tirar umas fotinhas primeiro.


(...)


- Adorei essa, tá toda colorida. Quanta mala!

- Está ansiosa pro seu primeiro acampamento?
- Muito.


Não precisam dirigir muito, logo encontram um lugar bem legal pra ficar. Correria pra montar as barracas, chuva a caminho. Mas uma chuva que pinga, pára, abre sol...

- Bora pra trilha!!!

(...)

- Vc tá parecendo uma tartaruga ninja com esse mochilão, Maria.
- Rsrs. Então tira uma foto.


(...)


- Putes, que cachoeira linda!
-
Vamos ficar aqui, esse visual tá muito lindo.
- Tá vindo água até aqui. Que delícia.

- Imagina se essa água toda fosse todinho, Maria.
- Kkkk. Ia dar uma dor de barriga danada na gente! :) Toca alguma coisa aí pra gente, Zé.


(...)

Anoiteceu, voltaram pro acampamento, fizeram o jantar. A noite estava bem interessante. Chovia e tinha estrelas. E não existia mais nada além.


Maria

Com as malas na mão, ele vem de novo da sua terra. Chega mudo, pálido, indiferente. Nada o alegra, nada o deixa triste, nada chama sua atenção. A camisa manchada de sangue no peito, que tinha uma ferida aberta. O suor exalava a distância.

Ela o espera na rodoviária, ansiosa por ouvir sua voz. Assustada com a ferida.

- Maria se foi, diz ele. Maria morreu. Maria não existe mais. Não se preocupe com a ferida – tudo que é peito sangra, tolice dos fracos. Amanhã cicatriza.

Dá uma grande sorriso.

- Bora pra casa, Maria.


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