Monday, May 11, 2009

Turbilhão

Acordo ainda noite, pego meu jipe e vou pra estrada.
Vontade louca de sair por aí sem destinho, levando comigo minha mochila, meu violão, água e minhas músicas.
Mais nada, mais ninguém. Não tem jeito.
Saí, peguei o rumo pro sul, liguei o som nas músicas de sempre, que ultimamente estão furando de tanto tocar. Não ligo, viajo mais ainda quando escuto. Volto a lugares e momentos inesquecíveis e abro um largo sorriso. Olho pro lado e o cara do carro do lado ainda acha que estou sorrindo pra ele. Quase jogou o celular dentro do meu carro. Hehehe, ainda tive que parar em alguns sinais antes de pisar até 110 km/h. Não passo muito disso não, ainda estou acostumando com meu carro novo na estrada. Mas ele foi feito pra estrada e eu estou adorando isso.
A Lua cheia ainda estava lá, bem na minha frente dando seu último brilho antes de amanhecer. Perigo, lua à frente. Fico hipnotizada mesmo, não tem jeito. Ainda bem que tinham poucos companheiros madrugadores. Meu amigo do sinal acabava de passar por mim dando uma buzinadinha e sumiu. Só eu e lua novamente. Hora de resolver pra onde ir.
Achei uma estradinha bacana entrando alí no Topo do Mundo. O sol já estava apontando. Uma neblina gostosa demais, que abri os vidros e deixei entrar no carro.
A paisagem tava linda, o clima geladinho começava a esquentar, e minha voz começou a perder a timidez. Eu parecia uma maluca cantando tudo que tocava.
Achei uns vilarejos interessantes pelo caminho. Gente sentada na calçada, pés no chão, jogando conversa fora, buteco enchendo, e a igrejinha já abria a porta para a missa das 7. Desci, comi um "pãozim" de queijo como uma boa mineira e um pingado. Bati umas fotos, e entrei um "cadim" na igrejinha pra "mode bater uma prosa" com o chefe. Engraçado como a muito não me dava essa oportunidade. Com a mudança radical que o rumo da minha vida levou a um tempo, foi também embora o hábito dominical e muitas vezes diário de estar alí. Abri mão disso como de muitas coisas importantes na minha vida. E acostumei. As pessoas já começavam a chegar para a missa mas eu me desliguei e era como se fôssemos só eu e Ele.
- Pois é, amigo, quanto tempo não venho te visitar.
- Verdade, não vem fisicamente, mas sempre estamos conversando.
- É. Descobri que não era tão necessário ter que vir, mesmo sendo agradável. Te achava sempre em todo lugar.
- E por que hoje resolveu me dar a honra de sua presença?
- Tava passando... E deu saudade. E você sabe o turbilhão que de repente está minha vida, e meu corpo, e minha mente...
- E quer se abrir? Quer ajuda?
- Quero. Queria um rumo.
- Você primeiro tem que saber o que quer. Aí sua vida toma rumo. Aí você vai ter toda a ajuda que precisa e até uma mãozinha extra. Mas enquanto não definir isso fica confuso ajudar você.
- Eu sei disso... Ultimamente é o que eu mais sei... Mas tava difícil saber pra onde ir. E isso só eu posso saber mesmo. Mas agora começo a desejar algo forte e querer um rumo, mesmo parecendo impossível. Minha cabeça deu um nó, meu coração acordou e meu corpo me responde com um turbilhão. Aí apesar das aparências indicarem o contrário e me deixarem triste e sem alternativa além do querer, quando paro pra pensar, tudo faz sentido, e o nó se desfaz.
- Você já tem a resposta. Saiba o que quer e as coisas se ajeitarão naturalmente.
Dizendo isso se calou, e eu me calei. Fiquei em silêncio por alguns instantes, deixei aquele refúgio.
Entrei no jipe, tirei o cd, resolvi deixar as músicas do rádio tocar. Segui caminho pra não sei onde. E sorri quando a música que furou no cd estava lá, tocando na radio local do vilarejo.
E antes que me desse conta, o celular vibrou uma mensagem: "tu es où? J'arrive, ne bouge pas."


"Suppose I never ever let you Kiss me so sweet and so sooooooft..."

Monday, May 04, 2009

La Belle et la Bête

Bela tinha um gatinho. um amiguinho peludo inseparável, seu melhor amigo.
Já estava até ficando surrado de tanto acompanhar Bela em suas aventuras. Paco era seu confidente, seu guru, seu leal escudeiro. Dormia sufocado nos braços de Bela todas as noites, e acordava jogado no chão frio. Paco nunca reclamou. Sabia que era amado e necessário.
Bela acordava no meio da noite, suando e pedindo socorro porque o monstro dos olhos negros, às vezes, vinha em sua procura e ela tinha que correr, correr, fugir. Às vezes, esticava as mãos na direção de Paco, que tomava forma de gente, e a puxava e a levava voando pra longe.
Ao acordar, pegava Paco que sempre estava jogado sem nunca reclamar, e já o levava para ajudá-la nas tarefas, depois para as brincadeiras, pro chuveiro, pra escola... E Paco foi ficando cada vez mais velho. E Bela crescendo... Paco foi ficando de lado... Até que ela encontrou uma menina linda, de cabelos negros e maria chiquinha, sorrindo e brincando com uma gatinha. Buscou Paco e o deu à ela. Ela adorou, disse que casaria sua gatinha com Paco e viveriam felizes para sempre.
Bela voltou muito satisfeita para casa, só com um apertinho no coração de se separar definitivamente de seu amigo. Mas nessa mesa noite ela sonhou, e seu super herói em forma de gente apareceu para levá-la num passeio às pirâmides do egito. Nada de monstros.
Tempos depois numa cafeteria, sentada lendo um livro e tomando um capuccino, depara-se com uma figura familiar. Teve o ímpeto de levantar e correr, mas percebeu que não estava no sonho em que tinha que fugir do monstro. Era ele, mas não causava mais medo, não precisava mais da ajuda de Paco para escapar, não correria. Tomou seu café mas não tirava os olhos do livro, com receio de encarar aqueles olhos brilhantes. Ele não tirava os olhos dela, a espera de uma oportunidade de dirigir-lhe a palavra.
Não encontrou essa oportunidade. Então, esperou a noite e apareceu mais uma vez nos seus sonhos, onde ela tentou correr mas ele foi mais rápido. Segurou seus braços, olhou nos seus olhos profundamente, aproximou-se devagar, ela foi cedendo, deixou de resistir, reparou na beleza daquele monstro, sentiu seu calor, ele sussurrou algo em seus ouvidos, aproximou seus lábios e a beijou... Demoradamente a beijou.
Bela não se lembra exatamente desse sonho, mas acorda com uma sensação muito boa e com uma vontade enorme de voltar à cafeteria.

I close my eyes
and I see your eyes
I'm afraid
I want to run away but I can't do it
I don't know what to do
I know that it can hurt me
but I don't know how to stop
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