Sunday, June 29, 2008

adeus vc, à Deus vc

Na minha jaima vivia um estrangeiro, que não entendia meus costumes e minhas leis.
...
Eu, depois que fiquei viúva, não perdi o hábito de sair junto com o sol que nascia a passear por uma hora na areia que já se fazia quente, mas suportável. Ia até o topo das dunas e parava. Avistava o oasis onde costumava terminar a caminhada e matar minha sede no poço. Mas não chegava mais até lá. Das dunas não dava mais um passo adiante. Olhava de longe e via os olhos de meu esposo, no meio das palmeiras. Então voltava, apreciando o passeio, sentindo o vento no meu rosto o cheiro do deserto. Gostava daquilo.
Um dia numa dessas caminhadas matinais avistei ao longe um moço, descansando à sombra de uma palmeira, comendo tâmaras e bebendo água de sua gerba. Observei por um tempo, devia ser um estrangeiro. Apesar de não conseguir enxergar seu rosto pela distância, seu jeito era um tanto diferente. Mas depois de ver os olhos que sempre estavam lá tomei o caminho de minha jaima.
Apesar da insistência de meus irmãos para deixar tudo e me juntar a eles, eu gostava de ficar alí, só, no meu canto, no que era meu. Casei-me muito nova, meu filho Souad já começava a se tornar adulto, e pelas minhas contas eu não devia estar com muita idade. Alí no meio do nada isso não era muito importante e não era muito preciso. Mas sentia que ainda tinha muita vida pra viver. Souad passava muito tempo fora, caçando e aprendendo o que podia em suas viagens. Ele que trazia o mundo até mim.
Anoiteceu, sentei-me na porta da jaima, e lia um livro que ele me trouxe. Adorava ler, era uma das coisas que mais me trazia prazer. Assustei com a presença do estrangeiro, que chegou pedindo abrigo. Senti medo, desde que estava só não passei por essa situação de ter que hospedar alguém. E esse moço me causava algum tipo de reação estranha. Mas não podia recusar, era lei, era minha obrigação. Estava machucado, com o peito sangrando. Cuidei da ferida com os recursos que eu tinha, mas era profunda e ainda precisaria de cuidados. Mostrei a ele seus aposentos, e trouxe-lhe algo pra comer. Ele não falava muito, se limitando a responder algumas perguntas e a falar o inevitável. Melhor assim, apesar de seus olhos falarem mais que qualquer palavra que sua boca pudesse pronunciar.
Na manhã seguinte fiz minha caminhada de costume e, quando voltei, ele tinha preparado uma refeição muito diferente do que eu estava acostumada. Estava tudo muito bem disposto, enfeitado, e um aroma muito agradável. Senti-me constrangida mas sentei-me com ele e comemos sem trocar palavra. Tudo muito saboroso, parecia que ele tinha um dom. E gostava. Daí por diante, ele prepararia sempre as refeições. E a cada dia falava um pouco da sua vida e eu da minha. Seu machucado estava cicatrizando bem. Numa noite, fizemos uma fogueira, e ficamos a observar o céu sem lua, repleto de estrelas.
- De onde eu venho não se vê um céu assim.
Desde então todas as noites acendíamos a fogueira e bebíamos alguma coisa. Até a noite em que precisamos apagar a fogueira pra não atrapalhar a visão da Lua que surgia, simplesmente maravilhosa, cheia, enorme, amarela, bem acima de nós. O frio então tomou conta, mas ele me aconchegou em seus braços e não senti mais frio algum, ao contrário, um calor que a muito tempo não sentia.
Por um ano inteiro, todas as noites de Lua cheia, apagávamos a fogueira e ele esquecia seu mundo e eu o meu. Nos outros dias e noites sempre tínhamos algo para falar e fazer, sempre juntos. Nem mesmo minha caminhada matinal eu fazia mais sozinha. Não mais parava no alto da duna. Caminhava novamente até o oasis. Quando meu filho veio me ver, ficaram amigos, e também passavam tempos juntos.
Um ano depois, resolvi ir até o oasis só, e o deixei dormindo. Ví novamente o olhar do meu esposo, nas palmeiras, desta vez estava sombrio, triste, parecia querer me alertar de algo. Senti um calafrio profundo e um pouco de medo. Quando voltei, não mais ví o estrangeiro, que para mim já tinha deixado de ser, mas para ele não. Olhei em volta, suas coisas também não estavam. Levou meu livro preferido e deixou o dele. Ele falava pouco, mas eu percebia que meu mundo não era pra ele. Sabia que um dia isso iria acontecer. Abri seu livro, engolindo seco, e, num pedaço de papel dentro dele encontrei um desenho de uma lua cheia e algumas linhas:
- "Não suportaria me despedir. Sabes que não tenho porto, nem jaima e que um dia iria. Fiquei mais do que deveria pois precisei dos teus cuidados. Estou curado, estou livre, pensei. Preciso ir, sozinho, embora quisesse tua companhia. Sei que seria pedir muito que venhas também. Meu mundo é muito diferente do teu. E o teu mundo não é o meu mundo. Se quiseres esperarei por um dia no próximo guelta, senão estou levando comigo um pouco de areia, seu sorriso e a lua. Um beijo, meu anjo."
Enxugando a lágrima que teimou em cair olhei na direção do próximo guelta.
- Você levou minha areia, deixou a sua. Nossa lua continuará no mesmo lugar. Adeus, Forasteiro. Que Alá cuide de você.

"Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala
Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
"

Saturday, June 07, 2008

"...e aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam ouvir a música...”
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