Tuesday, November 21, 2006

Entorpecida


13/11/2006
Querendo fugir do seu mundo que desabava, entrou num mundo que não era o seu. Foi praticamente jogada lá dentro, com histórias de amores e dores, onde teria enfim uma função para esquecer suas dores dilacerantes que não tinham remédio e ajudaria a curar a de outro.
Parecia uma droga, que a princípio deu coragem, anestesiou, aliviou, trouxe euforia e viciou. Aí já era tarde demais. Mas o contato com a droga era maior que qualquer coisa, 24 horas por dia, todos os dias. O problema era que Maria era otimista demais e acreditava que sempre seria melhor, não acreditando no contrário. Tudo é muito lindo no mundo de Maria. E quanto mais se tem, mais se dá, mais se quer. Falo de afeto. Nunca foi acostumada a ficar sem afeto, carinho.
Sabendo bem no fundo que isso era realmente uma droga e que um dia não teria mais como se sustentar nela, tomou a decisão de não mais querer, sendo ajudada pela distância. Durou pouco, o entorpecente chega novamente de mansinho e toma posse do entorpecido. Como fugir? Como resistir?
Aí começou a pior fase. A fase onde cada picada trazia euforia cada vez mais momentânea. Mas para Maria, tudo tinha que ser perfeito. Então, espetava-se novamente, na esperança que dessa vez fosse mais gostoso, mas não era. Tentava de novo, para experimentar novamente a euforia do começo, mas em vão. Esse foi seu erro. Deveria ter parado quando ainda tinha o controle da situação. Mas acho que toda droga leva a esse ponto, até o fundo do poço.
Até que Maria acordou. Ela tinha que voltar para o mundo real, nem o seu antigo mundinho perfeito, nem o mundo que não era seu. E como se trata de Maria, com mais cicatrizes dolorosas. Talvez por causa do orgulho, que não conseguiu encontrá-lo onde deveria, estava no fundo da mala encostada do quarto de despejo, junto com o amor próprio. Agora, livre da substância que a deixava entorpecida, tira o pó, abre a mala e resgata sua bagagem.
Chorou muito hoje, não seria novidade. Mas resolveu matar tudo que a faz chorar e não deixará cair mais nenhuma lágrima, ou pelo menos vai escondê-las com seu novo óculos escuros que está providenciando para amanhã.
Se não conseguir... A propósito, Maria tem uma faca.

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

As vezes essas "drogas" são necessárias em nossas vidas...

November 21, 2006 11:56 AM  

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