Thursday, November 16, 2006

Transplantado coração

A água do mar batia no meu corpo, indo e vindo deliciosamente. Mania minha ficar deitada bem na beiradinha, esperando pacientemente cada onda chegar, tentando agarrá-la até deixar a marca dos meus dedos na areia, em vão. Meus olhos sempre em direção ao horizonte, adorava aquela hora do dia em que eu podia olhar para o sol e admirá-lo. Por um instante senti uma coisa estranha, um aperto e uma dor, uma angústia e chorei. Chorei sem saber o porquê. Levantei num impulso e corri pra te ver. Corri até perder o fôlego e ao chegar na porta da sua casa parei. Tive medo do que poderia ver. Ou não ver.

Com o corpo todo molhado e cheio de areia virei lentamente a maçaneta. Não bati. Sabia que a porta estaria aberta como sempre. Na ponta dos pés fui em direção ao atelier, de onde vinha uma luz pálida e um perfume de incenso que me fez lembrar da última vez que estive ali:

...Apareceu sorrindo, com a garrafa de chat noir e duas taças lindas. Eu esperava na sala, aconchegada no puf, já descalça, ansiosa pelo beijo que chegou rapidamente, me repondo a energia e ao mesmo tempo a sugando, numa troca vital para nossos corpos como de costume. Deixou o vinho de lado e por algum tempo nos esquecemos dele. Esquecemos também do jantar que já estava preparado, me aguardando e nos aguardando. Como poderia esquecer aquele tempero, aquele cheiro. E a cada movimento uma foto, para registrar tudo. A última foto fui eu que tirei sem que você visse, enquanto acendia o incenso...

Empurrei a porta entreaberta, olhei as fotografias penduradas no varal, o frio na espinha que sentia foi se tornando quase insuportável, aterrorizante. Não vi você ali. Mais lentamente ainda fui até a cozinha, na esperança de ver você preparando algo, pois sabia que eu poderia aparecer a qualquer momento. Senti medo mais uma vez e corri para o quintal. Você estava alí com o gato, o seu preferido, caído de qualquer maneira sobre a folhagem e balbuciou:

- Quiseram me levar, abriram meu peito e arrancaram meu coração. Colocaram alguma coisa oca no lugar e costuraram de novo para que eu vivesse. Mas lembro bem das palavras ditas: “Vais sobreviver porque sem coração não se pode chamar de vida. Vais continuar vivo porque seria um pecado privar o mundo de tua beleza. Mas será uma sobrevida subterrânea. Ninguém te achará, tu não encontrarás ninguém. Podes esquecer. Pedirás pra morrer quando isso que tens não te satisfizer mais”.

Corri em sua direção e abracei forte a sua ferida, querendo que ela passasse pra mim. Deve ter doído. Doía em mim. E você continuou:

- Mas “isso” estava enganado. Acabei de descobrir quando me abraçou. “Isso” me fez foi um favor. Tudo o que “isso” disse já acontecia. Vai se surpreender quando souber que não funcionou. Sinto agora bater mais forte um verdadeiro coração. Tirando essa cicatriz que estará aqui pra sempre, tenho vontade de amar, de te amar, e amar o mundo. “Isso” deve ter levado o que já estava estragado, mas não entendo, só comecei a sentir agora quando você chegou. E tenho certeza que não foi esse o objetivo “disso”.

Me abraçou forte, como eu fiz quanto te encontrei. Não entendi, pois você já estava curado e bem, mas o sangue de nosso abraço não parava de escorrer. Não entendi por que não sentia mais o frio na espinha, o medo, a dor, o amor. Não sentia mais nada. Te tranferi tudo o que eu tinha, não podia mais sentir. O sangue era meu.
Você chorou por mim e eu não me afetei. Então chorou por nós e eu me fui.
Eu não tinha como sobreviver sem coração.

1 Comments:

Blogger c. said...

putz, que bonito.

November 20, 2006 7:22 PM  

Post a Comment

<< Home

Site Meter