Thursday, July 26, 2007

Simbiose

- Putes, tá difícil. Sento na frente dessa porra de computador, abro o editor, fico esperando alguma idéiazinha que seja e nada. nada. Ou melhor, só vem idéias imbecis e óbvias de um assunto que não aguento mais.
- calma, maria, você não tem obrigação de escrever nada. Tudo bem que seu blog fica aí abandonado, jogado às traças e daqui a pouco ninguém, nem uma almazinha sequer vai querer acessá-lo, nem mesmo de vez em quando. Mas eu, vou continuar fiel, olhando todos os dias se alguma coisa nova aparece.
- rrrrrrrrrrrrrr. valeu, vc é muito amigo, adora me deixar mais irritada ainda, como sempre. É que não sobra tempo pra escrever, aí forçar não dá. Definitivamente não dá. Chega, cansei, vou deixar isso pra lá.
Peguei um livro pra tentar distrair e começo a cochilar


...arranca do fundo do bolso uma faca suja de sangue e uma chave cor de rosa. Aperta a chave na mão esquerda e volta a pendurar o paletó no guarda-roupa do quarto dos fundos. O paletó verde, que mais gostava e mais usava, que o caracterizava melhor que qualquer outra vestimenta. Guarda de novo a faca, olha para o porta retrato caído no chão, lembra do dia que bateram aquela foto...

ela feliz, ele na comodidade. Não definia seu sentimento. Ora parecia feliz, como uma pessoa normal sentindo coisas normais. Ora se desesperava por estar vivendo aquilo, que ela achava tão bom, e ele achava tão idiota. A prova que estava certo era aquela foto, que no momento, deixou-se levar pelo lado tolo, achou lindo e deixou bater. Os dois apaixonados, com o rosto naquele buraco feito para bater fotos como se fossem personagens. Adão e Eva, no paraíso. O mais engraçado era que não precisava daquele cenário idiota. Estavam numa ilha linda, paradisíaca e se consideravam os únicos seres humanos do planeta. Onde um estava, o outro também estava. O que um fazia, o outro também fazia. Gostavam das mesmas coisas, não se pode negar, apesar de serem tão diferentes. Água e vinho, sol e lua, mas que viviam em simbiose, e tudo funcionava muito bem. Para ela funcionava, para ele dias sim, dias não. Não gostava da idéia da dependência, mas não queria abrir mão dela. Se desesperava pelo fato de estar ali o tempo todo, todo dia, mas não imaginava não estar. Respirava Ela, almoçava e jantava ela, sugava o que podia e dormia tranquilo, todos os dias. Tranqüilidade e paz demais para o gosto do pobre rapaz. Rapaz que já a muito deixara de ser, mas não queria se transformar em homem, mesmo com o rosto marcado, formas fortes e algumas cicatrizes.
No final de mais uma de suas viagens de aventuras, talvez a mais espetacular de todas, a que ela mais havia gostado, ele não aguentou o que rasgava seu peito querendo sair, o que a muito não fazia sentido de existir
alí, naquela redoma. Não queria mais aquilo ali dentro. Não tinha em que usar, e não queria usar.
No último dia, antes de retornarem, jantaram, tomaram vinho, caminharam pelas ruas escuras da vila, deitaram no gramado da praça. O céu estava estonteante, sem lua, só estrelas. Ela, como sempre, feliz. Deu a ele uma chave cor de rosa.
-Pode parecer bobagem agora, mas quero deixar essa chave com vc. Não quero tê-la comigo. Guarda pra mim. Vc vai saber onde achar a caixa e quando abrí-la. Não está longe. Acabei de guardar algo muito importante, sei que um dia você vai precisar.
Guardou a chave no bolso do paletó, sem fazer nenhuma pergunta e sem dizer nenhuma palavra. Esperou que ela adormecesse, ali entre as estrelas. Beijou sua boca, que ainda sorria. Não queria que aquele sorriso nunca deixasse aquele rosto, mas tinha certeza que ela não suportaria sua decisão.
Então, num gesto de compaixão, pegou a faca e delicadamente deu o golpe certeiro. Ainda deu tempo de ela abrir os olhos e ver o rosto de seu algoz. Entendeu, gemeu e derramou uma pequena lágrima. Ainda assim sorriu.

(...)
Recolhe a foto,engole seco, tranca a porta do quarto e prepara-se para sair. Novamente primavera, já era tempo de resgatar o que era tão importante pra ela. Passagem na mão, parte. Refaz parte do caminho, chega até a praça, está escuro. o céu está estrelado como da última vez que esteve lá. Não imagina onde possa estar o que procura. Pára, respira, sente seu perfume, caminha até um jardim repleto de rosas vermelhas. Mergulha entre elas e descobre uma caixa. Ainda ali, como que vigiada pelas rosas. Por um momento tem medo do que possa ter ali dentro. Mas desconfia. Abre a caixa, vê o que tanto desprezou, sentiu uma vontade imensa de ter de volta, era seu. Como ela não deixou se perder? Estava em suas mãos a decisão. Teve medo. Guardou de volta na caixa, trancou, mas levou consigo.
Sabe que um dia poderá precisar.

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